Interrupção

Ao abrir este blogue há apenas dois meses estava determinado a dedicar-lhe algum tempo. Inesperadamente, porém, um conjunto de tarefas e de desafios profissionais meteu-se pelo meio, impossibilitando-me de manter dois blogues exigentes sem que algum dos elos fraquejasse. Sou por isso obrigado a suspender heterodoxias|21. Ao mesmo tempo – fica aqui a promessa – reforçarei a actividade de A Terceira Noite com intervenções no registo mais ensaístico que esperava poder manter aqui. Vemo-nos então em A Terceira Noite.

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Recortes (4) | A terceira verdade

Javier Cercas

Autor: Javier Cercas
Fonte: Babelia (El País), 25 de Junho de 2011

Será Anatomia de um Instante história ou literatura? O autor deste livro sobre o golpe de 23 de Fevereiro de 1981 que ia revertendo o sentido da transição democrática em Espanha interroga-se sobre os limites dos géneros por se decidir pela segunda. A justeza da escolha não será líquida – podemos aproximar-nos mais da primeira –, mas conheçamos os seus argumentos.

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¿Qué es una novela? Una novela es todo aquello que se lee como tal; es decir: si algún lector fuese capaz de leer la guía de teléfonos de Madrid como una novela, la guía de teléfonos de Madrid sería una novela. En este sentido no hay duda de que mi libro Anatomía de un instante es una novela. ¿Lo es también en algún otro? No lo sé. Lo que sí sé es que a algunos lectores les ha parecido un libro raro.

Quizá lo es. Anatomía explora el instante en que, durante la tarde del 23 de febrero de 1981, un grupo de militares golpistas entró disparando en el abarrotado Parlamento español y sólo tres de los parlamentarios se negaron a obedecer sus órdenes y tirarse bajo los escaños: el presidente del Gobierno, Adolfo Suárez; el vicepresidente, general Gutiérrez Mellado; y el secretario general del partido comunista, Santiago Carrillo. Tratar de agotar el significado del instante en que esos tres hombres decidieron jugarse el tipo por la democracia -precisamente ellos tres, que la habían construido tras haberla despreciado durante casi toda su vida- obliga a indagar en sus biografías y en los azares inverosímiles que las unen y las separan, obliga a explicar el golpe del 23 de febrero, obliga a explicar la conquista de la democracia en España. La forma en que el libro lo hace es peculiar. Anatomía parece un libro de historia; también parece un ensayo; también parece una crónica, o un reportaje periodístico; a ratos parece un torbellino de biografías paralelas y contrapuestas girando en una encrucijada de la historia; a ratos incluso parece una novela, tal vez una novela histórica. Es absurdo negar que Anatomía es todas esas cosas, o que al menos participa de ellas. Ahora bien: ¿puede un libro así ser fundamentalmente una novela? De nuevo: ¿qué es una novela? Continuar a ler este post »

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Príncipes das trevas

Saint-JustO verdadeiro tema de L’Homme Révolté, publicado por Albert Camus em 1951, é a forma como o ser humano, em nome da revolta, da sedição, se acomoda ao crime. Sobre o modo como a revolta colectiva levou ao surgimento dos Estados policiais e concentracionários do século vinte. Nele podem ser encontradas algumas páginas sobre Louis Antoine Léon de Saint-Just, o «arcanjo do Terror», que durante a Revolução Francesa defendeu a necessidade de os responsáveis pelo Estado serem totalmente implacáveis para com os seus inimigos, apagando, pela via das armas e do trabalho da guilhotina, aqueles que contrariassem uma acção revolucionária sem tréguas ou do seu alcance minimamente duvidassem. Vale a pena recordar um passo do texto de Camus, num tempo, este tempo, no qual figuras desta natureza, como príncipes das trevas à espera da sua oportunidade, voltam a ser anunciadas, em alguns nichos do radicalismo, como exemplos de uma coerência irredutível e necessária. Quanto ao mencionado «arcanjo», acabou, como se sabe, com a cabeça decepada por uma imperturbável lâmina, numa tarde seca e calma do dia 28 de Julho, ou 10 de Thermidor, de 1794. Sem direito a julgamento, tal como pregou para os outros.

«Saint-Just, contemporâneo de Sade, aceita a justificação do crime, embora parta de princípios diferentes. Saint-Just é, sem dúvida, o anti-Sade. Se a fórmula do marquês poderia ser “Abri as prisões ou provai a vossa virtude”, a do conven­cional seria: “Provai a vossa virtude ou ide para a prisão”. Ambos, contudo, legitimam um terrorismo, individual quanto ao libertino; do Estado quanto ao sacerdote da virtude. O bem absoluto ou o mal absoluto, se em tal assunto se aplicar a necessária lógica, requerem o mesmo furor. Claro que, no caso de Saint-Just, existe ambiguidade. A carta que ele escreveu a Vilain d’Aubignv em 1792 possui qualquer coisa de insensato. Esta profissão de fé de um perseguido perseguidor termina por uma confissão violenta: “Se Bruto não matar os outros, matar­-se-á a si próprio”. Uma personagem tão obstinadamente grave, tão voluntariamente fria, lógica e imperturbável, permite ima­ginar todos os desequilíbrios e todas as perturbações. Saint-Just inventou a espécie de gravidade que converteu a história dos dois últimos séculos num tão enfadonho romance negro.»

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A lição

Tony Judt

© 2010 Fernando Vicente

O desaparecimento prematuro de Tony Judt suscitou há alguns meses um sem número de evocações. Coincidência invulgar para um historiador, num tempo em que a revisitação crítica do passado tem vindo a ser colocada na prateleira cinzenta das irrelevâncias. Circunstâncias várias motivaram esta atenção. Desde logo o facto da doença que o vitimou ter afectado poderosamente a capacidade de comunicação de alguém cuja actividade se centrava justamente na difusão do saber. O artigo «Noite», publicado na New York Review of Books quando as sequelas do mal seguiam já o seu irreversível caminho, permanecerá como testemunho lúcido e comovedor de um encontro pessoal com o silêncio. Chamou-lhe ele aí «um encarceramento progressivo e sem fiança». Um segundo motivo dessa intensa atenção prendeu-se com a sua actividade opinativa associada aos dilemas do nosso tempo. Judeu de esquerda desde a juventude, movimentou-se sempre, nesta dupla qualidade, num ambiente pouco afeito a consensos. Perto da morte lembrou-se de como crescera a ouvir os parentes e as visitas lá de casa a debaterem o marxismo, o sionismo e o socialismo: «falar parecia-me até o objectivo da existência adulta». Um terceiro motivo do interesse que instigou adveio do carácter polémico, frequentes vezes a contracorrente, que derivava da sua reiterada heterodoxia. A posição, partilhada aliás com Edward Said, sobre a criação de um Estado único israelo-palestiniano, afastou-o definitivamente de sectores que até aí o tinham acompanhado. Nos últimos tempos, a projecção utópica de um retorno à pureza original da social-democracia, divulgada em Ill Fares the Land: A Treatise On Our Present Discontents (2010), ampliou esse duplo efeito de atenção e recusa.

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Entre sombras e silêncios

sombras, silêncios

©2008 Jaqueline Vanek

Em crónica saída na revista New Statesman, o escritor ucraniano Andrei Kurkov descreveu Sussurros, de Orlando Figes, como «uma fascinante enciclopédia das relações humanas», considerando-o, a par do Arquipélago Gulag, de Soljenitsine, e dos Contos de Kolima, de Varlam Chalamov, como «um dos maiores monumentos literários do povo soviético». Não se trata de uma desnecessária hipérbole, pois esta é, de facto, uma obra soberba e claramente inovadora. Convém à partida desvanecer um eventual equívoco: este não é mais um dos muitos estudos históricos descritivos e estatísticos sobre Estaline, o estalinismo e as suas vítimas proporcionado pela abertura dos arquivos que se seguiu à Glasnost. Mergulhando nas sombras, surge antes como uma abordagem da vida diária das pessoas comuns e da forma como esta foi condicionada pela engenharia social do «homem novo». O próprio título traduz uma das dimensões da realidade do quotidiano na antiga União Soviética: «sussurro» era o ténue som emitido por alguém que desejava passar despercebido e escondia a sua voz, mas na língua russa é também o modo de soprar ao ouvido das autoridade e da polícia aquilo que alguém disse, uma prática vulgarizada a partir da década de 1920. A atenção prestada às particularidades da vida privada e o privilegiar da palavra murmurada configuram assim a dimensão mais claramente inovadora deste livro de Figes, necessariamente apoiado no valor documental da memória individual. Justificando o recurso sistemático a cerca de 500 entrevistas, o autor declara mesmo o testemunho oral como mais fiável do que as evocações escritas, uma vez que pode sempre ser cruzado com outros e directamente confrontado com a certeza dos factos. Continuar a ler este post »

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O medo dos intelectuais

Ramin JahanbeglooPorque são cada vez mais invulgares – já quase insólitos neste ocidente do mundo no qual as missões e os destinos cedem facilmente o lugar a metas e objectivos, onde a infinita demanda da felicidade partilhada é trocada sem vacilações pela exibição a prazo do sucesso – vale a pena ler textos judiciosos, e de certa forma a contracorrente, como o oportuno artigo publicado vai para dois anos no diário El País pelo filósofo iraniano Ramin Jahanbegloo, hoje professor de ciência política na Universidade de Toronto mas que em 2006 foi detido e torturado pelas autoridades do seu país. Nele se aborda a «epidemia de conformismo» que afecta a vida pública deste nosso norte tal qual a conhecemos, com o seu cortejo dos mesquinhos interesses individuais a sobrepor-se, sem qualquer vergonha na atitude de quem os alimenta e lhes dá voz, à presença das vozes críticas. «El temor de los intelectuales a la política» deve ser lido na sua totalidade, mas sublinho aqui algumas frases:

«Os intelectuais críticos são hoje uma espécie em vias de extinção. Temem a política, e pode dizer-se que a política mostra uma absoluta indiferença por tudo o que se possa denominar intelectual.»

«Nunca se mostraram tão profundamente opostas a consciência crítica e a esfera pública.»

«Parece que os intelectuais de hoje pensam que todas as verdades morais são relativas, que já não existe necessidade de se ser a voz moral de um mundo sem voz.»

«Se não se lê e se não exerce o espírito crítico, a história pode converter-se numa simples repetição dos erros humanos.»

«Como assinalou Max Weber, o compromisso intelectual reclama a ética do herói, pois é necessária uma grande valentia moral para enfrentar as responsabilidades que se adquirem na esfera pública.»

«Enquanto nós, humanos, continuarmos a acreditar que esperança não é uma palavra vã, os intelectuais manter-se-ão úteis em todas as sociedades.»

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Por uma nova gramática do bem comum

Daniel Innerarity

A sobrevivência da democracia depende da vitalidade do espaço público. A ideia não é nova, mas o filósofo bilbaíno Daniel Innerarity fez dela o eixo de O Novo Espaço Público (Teorema). «Fazer política», diz-nos aí, «é hoje semelhante ao que fazia aquele indivíduo que de súbito bradava num restaurante “Pssst!” […] em voz tão alta que todos olhavam para ele e cessava o ruído das conversas». O alheamento do cidadão comum em relação aos projectos colectivos, o seu silêncio diante dos que falam em seu nome, ficaria a dever-se sobretudo à confusão instalada entre público e privado, à «privatização do público» e à «politização do privado», que tendem a diminuir o alcance da responsabilidade social e a estimular o individualismo. Neste ensaio expõem-se o cenário e os intérpretes do estado de desresponsabilização em que vivemos, insistindo-se no recuo das preocupações com o público, substituídas por uma valorização excessiva das identidades ou então pelo populismo. Ambos determinados pela «irrealidade dos meios de comunicação» e por uma intensa manipulação da História e da memória colectiva. Mas não se deixa esmagar pelo pessimismo. Fala-nos por isso da construção de uma «cultura pública comum», de uma nova ágora em condições de impor a renovação da experiência política e de impedir que esta se reduza à mera gestão «realista» do presente, trocando a acção colectiva e o debate criador, como já advertira Hannah Arendt, pelos automatismos próprios da produção e do consumo. Seguindo Habermas, Innerarity evoca então a necessidade que as sociedades actuais têm de «um centro virtual da sua autocompreensão», de reflectirem sobre si próprias, para que, cegas, se não fragmentem ou deixem cair na inércia administrativa. E sugere a construção de uma nova «gramática do bem comum», de uma política, redentora do espaço público, que será principalmente transnacional e cosmopolita. Apresentada pelo autor basco como um caminho para salvar e dar substância à democracia.

Versão revista de uma nota de leitura publicada há cerca de um ano na revista LER.

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O desvelador

Ernst BlochErnst Bloch (1885-1977), um dos grandes filósofos da utopia, usou a categoria do «ainda-não ser» para significar que o ser «dos homens» é sempre inacabado, e que essa incompletude justifica sempre novas modulações. Esta é a lógica última do anti-conservadorismo, que aceita não haver repouso no imobilismo, uma vez que este é, de facto, impossível. Todo o presente é feito de relações conflituais com o passado e de relações descontínuas com o futuro, vivendo permanentemente num processo de instabilidade histórica que contraria a aparente estabilidade. O futuro é pois – esta é uma das grandes convicções de Bloch – alguma coisa que se alimenta do passado, particularmente do que, desse passado, como a propósito escreveu Jean-Marie Vincent, «ficou apenas esboçado e foi rejeitado, deformado pela morgue dos vencedores e poderosos, desejosos de lançar o véu do esquecimento sobre o que incomoda.» O trabalho do historiador é, assim, também o do desvelador, o do descobridor, aquele que chama à vida e ao futuro o que erradamente foi dado como morto, com vencido, mas permanece próximo, à espera que lhe peguemos para que possa seguir o seu caminho de redenção.

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Por detrás do ícone

Trotsky, Rivera e Breton no México

Trotsky, Rivera e Breton em 1938 no México

Fora do universo do velho «socialismo de Estado» e do marxismo mais imperativo, o perfil de Lev Davidovitch Bronstein, Trotsky, incluiu sempre os estigmas do herói e do mártir. A luta contra Estaline e o estalinismo concedeu-lhe desde cedo – e não apenas entre os seus seguidores – uma imagem pública de bolchevique «autêntico», que não traiu mas foi traído. Isaac Deutscher descreveu-o como o «rebelde par excellence», justamente para se referir às características que o transformaram, a partir de 1921, num crítico do regime que ajudara a estabelecer. Terá sido essa silhueta de «eterno revolucionário» a determinar o efeito internacional de sedução que projectou junto de sucessivas gerações de comunistas e outras pessoas da esquerda revolucionária desconformes em relação aos rostos do paradigma marxista-leninista. O papel decisivo na Revolução de Outubro e na criação do Exército Vermelho, a grande aptidão como orador, o valor literário dos seus escritos, associados a um estilo pessoal elaborado que o aproximava mais do intelectual do que do duro combatente maximalista, contribuíram também para fixar a representação encantadora do homem de letras dedicado a uma causa pela qual viria a dar a própria vida. Porém, nada disto seria suficiente para lhe assegurar a imortalidade. O passo definitivo foi dado pelo projecto político próprio, fundado na defesa de uma revolução permanente lançada à escala mundial contra a perspectiva do «socialismo num só país», e na percepção de uma «crise da direcção do proletariado» que tornava imprescindível um combate sem tréguas contra a degenerescência burocrática. A repressão brutal destas ideias e dos seus partidários, imposta por Estaline, acabaria por acentuar a noção de exemplaridade, de pureza revolucionária, mais tarde revigorada por biografias de pendor intensamente elogioso e hagiográfico como a de Deutscher, editada entre 1954 e 1963, e a de Pierre Broué, saída em 1988. Continuar a ler este post »

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Um bom princípio de conversa

Tzvetan TodorovNum registo meio pedagógico meio trocista, dizia-me há tempo um colega que «iluminismo não é palavrão». Não posso estar mais de acordo com o aviso. A afirmação cega e desgovernada do relativismo radical, associada à ideia completamente estúpida segundo a qual a tradição cultural do ocidente é estruturalmente pobre, impura e nociva, tem levado muita gente honesta mas por vezes mal informada a ignorar o papel historicamente emancipatório da filosofia das Luzes, desconsiderando os seus princípios basilares. Noutra direcção, vozes vindas dos sectores mais retrógrados do pensamento contemporâneo chegam, como o fez o papa João Paulo II, a julgá-lo responsável pela edificação das «ideologias do mal», do nazismo e do comunismo em particular, que deixaram no século XX o seu rastro negro. Pior, olham-no como instrumento fundador de um conceito de liberdade, tolerância e democracia que pretendem pôr em causa. Já Tzvetan Todorov vê futuro nos três princípios que, em L’Esprit des Lumières, de 2006, considera condensarem o valor funcional da corrente: 1) a valorização da autonomia do indivíduo face à intervenção dos poderes; 2) a deslocação do humano para um lugar central na interpretação do mundo; 3) a aceitação da dimensão universal de valores e sociabilidades que concorrem com a diferença cultural. Qualquer um destes princípios pode ter no BI o seu lugar de nascimento, mas transcende-o obrigatoriamente. Todorov reconhece assim a presença dos traços essenciais do iluminismo em tradições culturais originárias da Índia, da China ou do mundo islâmico. Não se trata, pois, apenas de uma mania europeia. Continuar a ler este post »

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Reinventar trajectórias

bicicletaPara Marc Augé «o biciclismo é um humanismo». Escreveu-o no Éloge de la Byciclette (2008), cujo título desenha uma analogia óbvia com o título da famosa conferência proferida por Sartre em 1945 na qual, em debate com os marxistas – para quem o humanismo «esquece o homem concreto» –, o filósofo parisiense lançou as bases de uma certa «popularização» do existencialismo francês. O humanismo do qual falava nada tinha, porém, a ver com a noção, ultrapassada para ele, do valor do indivíduo como «fim em si mesmo» ou, muito menos, enquanto «valor superior». Em «O existencialismo é um humanismo», Sartre falava antes do «homem» como um ser «para o qual os valores existem» e do humanismo como uma atitude que, por este preciso motivo, lhe podia conceder alguma dignidade.

A posição de Augé une-se de algum modo a esta noção de um combate humano pela dignidade que lhe é própria. Fá-lo de uma forma muito pragmática, ao sentar o indivíduo sobre o selim da sua bicicleta pessoal, a partir dela inventando percursos de acordo apenas com a sua vontade, o ritmo do seu tempo, a energia e os caprichos que vai administrando. Descobrindo um mundo à sua medida enquanto pedala, por onde lhe apetece, parando quando quer, retomando depois o movimento numa qualquer direcção e a diferentes intensidades. Sem os constrangimentos do trajecto a pé mas também sem as limitações, determinadas pela rede de estradas e pelas regras do trânsito, que hoje experimenta o viajante motorizado, esse escravo dos mapas. Totalmente entregue apenas à sua própria escolha, «passando na rua, um domingo, às seis horas da manhã», como num poema de Jacques Réda.

A velha bicicleta é aqui apresentada como indício de futuro, ecológico e limpo, utilizado, a par dos transportes colectivos não poluentes, como meio de livre circulação pelas cidades que estão para vir. Fazendo redescobrir um certo «princípio da realidade» assente numa ligação estritamente pessoal entre o espaço e o tempo, liberto desse mundo invadido pelas imagens de destinos e de veículos no qual vivemos de uma forma bastante passiva. Sempre confinados às cadências do tráfego automóvel ou forçados a circular exclusivamente pelas vias impostas pela organização social do trabalho e pela gestão política dos espaços públicos. Um belo projecto, este de Augé, cuja configuração fantasiosa as actuais condições de restrição do desperdício – quando somos forçados a contabilizar as despesas até ao último cêntimo – tendem a transformar num projecto de vida tão necessário quanto desejável. Tendo como cenário um estado geral de reinvenção das trajectórias.

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Tranquilidade e resistência

M. OnfrayLa Puissance d’exister, de 2006, é apresentada pelo filósofo francês Michel Onfray como um manifesto, retomando nessa qualidade alguns dos seus temas mais caros: um pensamento e uma intervenção abertamente libertários, a defesa do hedonismo enquanto «dispositivo de resistência», uma sexualidade liberta por uma vez da pesada ganga judaico-cristã e burguesa, um ateísmo pós-cristão, a valorização objectiva do lugar social do rebelde. Talvez esteja justamente nesta qualidade de síntese, de revisitação, de «ponto da situação» como o autor reconhece, o grande interesse que tem para o leitor a iniciar-se no reconhecimento do trabalho de Onfray, sempre proposto como uma ferramenta para «voltar a encantar o nosso tempo melancólico com a proposta de um pensamento a viver.» O autor fala do Maio de 68 principalmente como «um trabalho que não foi levado até ao fim», e logo como tarefa a completar. Define a revolução como um trabalho perseverante e ininterrupto, assente numa capacidade individual de superação que, evocando mais o conceito camuseano de revolta, se encontra inscrita «no progresso do espírito humano.» No final, formaliza uma declaração de princípios já intuídos ao longo do livro. «Uma sociedade anarquista» totalmente esvaziada da intervenção regular do Estado parece-lhe sempre associada, como hipotética solução, a «uma perspectiva sinistra e improvável». O objectivo que prescreve é por isso bem diverso: criar as condições para a afirmação, no interior das actuais sociedades democráticas existentes, de possibilidades individuais ou comunitárias de alcançar «uma ataraxia real», de espaços de tranquilidade, de serenidade, capazes de tornarem a vida menos carregada, menos penosa, com lugar para o treino e a afirmação de uma atitude hedonista. Uma configuração da acção que, à entrada deste segundo decénio do século, parece conter algo de escapista. É provável que assim seja, mas talvez venha justamente daí a capacidade de sedução que o pensamento de Onfray exerce sobre os seus fiéis leitores.

A tradução portuguesa, intitulada A potência de existir, foi editada em 2009 pela Campo da Comunicação.

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